Publicado em Críticas, Nacional, Notícias

“Um violinista no Telhado”: um espetáculo encantador para todos os públicos

Um Violinista no Telhado traz aos palcos a cultura judaica vista de dentro e apresentada pelos próprios judeus. A inserção neste contexto não se dá somente por ser um roteiro escrito por um judeu, mas está presente em todos os âmbitos: as roupas, os símbolos, a música, a dança, as músicas, as orações, os cabelos, as barbas, os chapéus, os véus, sotaques, orações em yiddish... Todos os elementos de cena nos reportam a esse conjunto rico que definem o que é ser judeu: uma religião e/ou uma nacionalidade.

Nesta última quarta, dia 18/05/2011, fomos ao Teatro Oi Casagrande conferir a pré-estréia do musical Um Violinista no Telhado, e agora fazemos nossas críticas a essa montagem. 

Sou extremamente suspeito para falar de Um Violinista no Telhado por razões contraditórias: sou fã das montagens da dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho, mas não gosto de Fiddler on the Roof (versão cinematográfica, porque não conheci a teatral). E como anunciara no Twitter, a versão brasileira me fez mudar de opinião e incluir mais esse na minha lista musicais que gosto, lista essa em que sempre cabe mais um!

Fiddler on the Roof é musical baseado no romance de Sholem Aleichem Tevye and his Daughters (ou Tevye the Milkman and Other Tales), que conta a história de Tevye, leiteiro que vive numa comunidade judaica no Império Russo e que tenta manter o equilíbrio de sua família (composta por esposa e 5 filhas) em torno das tradições judaicas, enquanto o mundo é sacudido pela perda de poder pelo czar (principalmente na guerra contra o Japão por territórios chineses de influência na Ásia), pela luta contra a condição de miséria da população (simbolizada no Domingo Sangrento de 1905), processo de ocidentalização do Oriente e o fervilhar de idéias socialistas/soviéticas nos anos que antecedem a 1ª Guerra Mundial e a Revolução Russa.

Em 1964 o texto ganhou versão no teatro musical contando com libretto de Joseph Stein, música de Jerry Bock e letras de Sheldon Harnick. Algumas alterações no texto ocorreram, situando a história na fictícia Anatevka na Ucrânia e no ano de 1905. O grande Zero Mostel fazia o papel de Tevye e Fiddler… foi o primeiro musical que ultrapassou a marca de 3 mil apresentações na Broadway ao longo dos 10 anos que ficou em cartaz (14º musical com temporada mais longa).

Sucesso de público e crítica, a montagem original de Fiddler… ganhou 10 indicações ao Tony, levando para casa 9 prêmios (dentre eles, melhor musical, melhor música, melhor libretto, melhor direção e melhor coreografia).

Em 1971 o musical foi adaptado ao cinema e teve no papel de Tevye o igualmente grandioso Chaim Topol (sendo que anteriormente esse papel fora oferecido a atores como Frank Sinatra, Marlon Brando, Orson Welles, Anthony Quinn, sendo todos recusaram). O filme, assim como a peça, foi muito aclamado e ganhou 4 prêmios Oscar.

Após sucessivas montagens e revivals na Broadway e West End, este musical invade os palcos fluminenses, com direção de Charles Möeller, versões de Cláudio Botelho, José Mayer no papel de Tevye e Soraya Ravenle como sua esposa Golde.

Sinceramente não achei o filme Um Violinista no Telhado legal. Tive a sensação de que faltava algo e me pareceu ser chato, talvez com excesso de números musicais. A versão teatral novaiorquina não conheço, mas o que eu vi acontecendo nesta quarta-feira no Oi Casagrande é algo que não consigo descrever.

A carga dramática pessoal contida em Um Violinista… é algo que somente a linguagem teatral consegue traduzir com perfeição, principalmente por causa do contato direto com o público, que se torna parte da história e, de certa forma, confidente de Tevye, que não é só o personagem central, mas também o narrador da história.

Para início de conversa, lendo a minissinopse aqui descrita não se consegue perceber que é, afinal, o tal do violinista no telhado. Na verdade, ele não é um personagem, mas um símbolo. Em 1912 o pintor surrealista Marc Chagall, que é judeu, fez o quadro The Fiddler, em que se vê um violinista se equilibrando num telhado, a ponto de cair, enquanto no segundo plano da pintura percebe-se uma sinagoga numa típica vila judaica.

Esse símbolo foi adotado como representante do povo judeu, que vive sempre em situações de instabilidade e iminente queda, mas que tenta manter o equilíbrio e a alegria de viver por meio daquilo que lhes une como povo onde quer que se encontrem: a tradição.

E a tradição é o centro do texto: a estrutura social de Anatevka, as roupas e acessórios como símbolos de vida e cultura, o respeito ao rabino enquanto autoridade da religião e ciências, a divisão social do trabalho (marido, mulher, filho e filha), o pai enquanto centro financeiro da família, a mãe como administradora do lar, das refeições e dos eventos religiosos da família, os casamentos arranjados pela casamenteira, como forma de garantir o aumento do povo judeu e a manutenção de suas tradições. Estas se mantém e são propagadas, muitas vezes sem contestação.

Mas estamos em 1905 e o mundo já não é o mesmo. Impérios e reinados divinos (como o do czar) já não são mais o modelo (europeu ocidental) do Estado-nação delineado na Convenção de Viena. Burguesia (ou seja, não-nobreza) domina a vida política e econômica desses Estados. Classes operárias nos Estados industrializados já sabem formar grupos de pressão. Filosofias econômicas liberais se chocam com as socialistas. Universidades se tornam um pouco mais acessíveis ao público. Estradas de ferro, serviços postais e cabos telegráficos reduzem significativamente o tamanho do planeta. O mundo é um grande caldeirão em que arte, filosofia, política, economia e cultura fervem e se misturam. E a pobre Anatevka, até então perdida no tempo e no espaço é invadida por tudo isso.

Primeiramente, porque em Anatevka a comunidade judaica divide território com os russos católicos ortodoxos, este que possuem livrarias e jornais (despertam a curiosidade das filhas de Tevye pelas letras e cultura) e, a princípio, o contato entre ambos é aparentemente pacífico (como se vê na música To Life em que russos e judeus dançam, bebem e comemoram juntos o noivado do açougueiro com a filha mais velha de Tevye, além de outras alegrias da vida). Segundo, a chegada do estudante Perchik, universitário de Kiev, demonstra o contato entre o tradicional e o revolucionário.

Mas a vida de Anatevka seria mais tranquila se sua única preocupação fosse criar ferramentas para manter sempre vivas as tradições judaicas entre os jovens (que resolvem se apaixonar e casar sem a permissão do pai e a consultoria da casamenteira). Notícias de polgroms (decretos czaristas de expulsão dos judeus) em outras comunidades judaicas deixa apreensivos Tevye e os outros patriarcas, que tentam se manter equilibrados e esperançosos, em razão de sua confiança em Deus.

Um Violinista no Telhado traz aos palcos a cultura judaica vista de dentro e apresentada pelos próprios judeus. A inserção neste contexto não se dá somente por ser um roteiro escrito por um judeu, mas está presente em todos os âmbitos: as roupas, os símbolos, a música, a dança, os cabelos, as barbas, os chapéus, os véus, sotaques, orações em yiddish… Todos os elementos de cena nos reportam a esse conjunto rico que definem o que é ser judeu: uma religião e/ou uma nacionalidade.

Já não bastassem as riquezas do texto e do figurino, as luzes e os cenários emolduram todos esses elementos e o complementam, entregando ao público um lindo quadro que traduz em seus matizes a alternância de momentos tristes e felizes, íntimos e coletivos.

O palco é adornado com madeira rústica e tem aquele aspecto empoeirado de chão seco e sem pavimento. Painéis verticais deslizam-se por trilhos dispostos em ângulos e que, ao se movimentarem, levam os personagens para o interior da casa, para o quintal, floresta, praça, bar e outras locações. Além disso, a profundidade enorme do palco possibilita a criação de ambientes e locais distantes, como, por exemplo, a estação de trem, em que o portão fica à frente do palco e os trilhos ficam ao longe, dando a idéia do trem cruzando o horizonte na madrugada.

Outro ponto forte cenografia são os efeitos especiais, com destaque óbvio para a cena do sonho de Tevye, em que Fruma-Sarah sai do chão e faz um horripilante balé aéreo em meio de fumaça e relâmpagos enquanto ameaça Tzeitel. Isso sem contar a linda cena em que a neve cai sobre os judeus desamparados enquanto estes cantam seus lamentos e decidem reerguer-se.

Outro grande elemento essencial para a configuração deste âmbito cultural judaico são as danças, que são executadas forma belíssima e lotadas de técnica, principalmente a dança com as garrafas e na música À Vida.

Fechando essa fórmula de sucesso encontramos grande elenco já bastante conhecido da cena teatral e, principalmente, por seus trabalhos de sucesso com Möeller & Botelho: Ada Chaseliov, Soraya Ravenle, Dudu Sandroni, Tomás Quaresma, Malu Rodrigues, Marya Bravo, André Loddi, só para citar alguns. Mas a feliz surpresa é a presença de José Mayer como Tevye.

José Mayer é um ator de talento incomensurável, apesar de achar, sinceramente, que as últimas novelas que fez na Globo lhe tenham subestimado. Vê-lo fazendo um personagem diferente daquele tipo que faz nas obras de Manoel Carlos (galã de meia-idade que pega a mulherada toda), e melhor: um personagem profundo e dramático como é Tevye foi um grande alento. Mas, além de sua competência de atuação, ele canta muito bem! Seu Tevye consegue ser um homem rude e castigado pela vida, mas ainda assim é um pai amoroso e um bondoso amigo e vizinho.

Um Violinista no Telhado é mais uma prova de que o Brasil é um celeiro de talentos e que para o brasileiro não há limites. Para aqueles que, como nós, somos fãs de musicais, estética essa que por Nova Iorque aprimora e distribui ao mundo, essa montagem demonstra que nosso país só não ultrapassa a Broadway pela ausência de infraestrutura física e jurídica para o desenvolvimento de temporadas maiores e com número maior de peças em cartaz. Porque talento, meu amigo, isso nós temos de sobra!

Apesar de sua duração e pelo grande número de música e dança, fatos esses que podem vir a desanimar algumas pessoas, Um Violinista no Telhado é, ainda assim, um espetáculo encantador e que empolga as platéias.

A única coisa que reclamo nesse musical é do público. Gente, pelo amor de Deus, vamos aplaudir no fim dos números. Aplaudir no meio da cena é meio trash. Outra coisa: Tevye é sarcástico. Ele não faz piada, reclama com Deus sobre sua vida. Um Violinista no Telhado não é show de stand-up para que a gente aplauda efusivamente as gracinhas que ele solta. O texto é dramático e triste, apesar de algumas cenas alegres.

Totalmente recomendável para todos os públicos, Um Violinista no Telhado está em cartaz no Teatro Oi Casagrande (Shopping Leblon), com sessões às quintas, sextas (21h), sábados (17:30 e 21:30) e domingos (19h), com ingressos variando de R$ 60,00 (balcão setor 3) a R$ 150,00 (VIP).

Como diria o Livro Sagrado… (vejam e vocês vão entender)

1 Comentário

  1. Por George Luis

    Não é stand up … ahuhaiuhaiuhaiuhaiuahiua
    Adorei!

    Eu estive lá nesta mesma quarta-feira e concordo em gênero, número e grau com o que foi dito aqui. IMPERDÍVEl. EMOCIONANTE. LINDO!

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

What is 13 + 14 ?
Please leave these two fields as-is:
IMPORTANT! To be able to proceed, you need to solve the following simple math (so we know that you are a human) :-)